Você está tentando liderar o seu cachorro — e esquecendo de amá-lo
Como uma teoria descartada pelo próprio criador ainda nos faz tratar nossos cães com frieza
Quase todo dia, quando saio para passear com a Filó, vejo a mesma cena: tutor de rosto sério, guia unificada curta ou enforcador, cachorro andando tenso do lado. O animal tenta farejar um poste — afinal, farejar é literalmente o jeito que um cão lê o mundo — e leva um tranco. Eles seguem em frente, em silêncio, como dois estranhos que dividem o mesmo apartamento.
Já vi isso tantas vezes, mas ainda me incomodo. E comecei a me perguntar: o que está acontecendo com a gente?
Isso é adestramento? Talvez. É também amor? A resposta não é tão óbvia quanto parece.
A teoria que nunca deveria ter saído do zoológico
Tudo começa com Rudolf Schenkel, etólogo suíço que em 1947 observou lobos em cativeiro no Zoológico de Basel e concluiu que eles viviam numa hierarquia rígida de dominância, com um “alfa” controlando o grupo pela força e pela intimidação. A ideia era sedutora: simples, direta, fácil de transpor para o adestramento canino. Se os lobos têm um líder, os cães — descendentes deles — também precisam de um. E esse líder, claro, deveria ser você.
Em 1970, o biólogo americano David Mech popularizou o conceito num livro que se tornaria referência obrigatória para gerações de adestradores. A limitação, que poucos mencionavam: as observações originais eram de animais em cativeiro, sem parentesco entre si, sem possibilidade natural de dispersão. Um cenário artificial que produzia comportamentos artificiais.
Décadas depois, Mech estudou lobos na natureza. E voltou atrás. Em 1999, publicou um artigo mostrando que matilhas selvagens são, na prática, famílias. Os “líderes” eram simplesmente os pais. Não havia disputa feroz por dominância: havia estrutura familiar e cooperação. Mech passou anos tentando desfazer o que tinha ajudado a construir, inclusive pedindo que seu livro de 1970 fosse tirado de circulação. O pedido foi negado pela editora.
O mito sobreviveu ao seu próprio criador.
O preço do tranco
O problema não é só teórico. Cães treinados com métodos aversivos apresentam níveis mais elevados de cortisol — o hormônio do estresse — e sinais físicos de desgaste, como ofegar excessivamente. Pesquisadores da Universidade do Porto e da Federação de Universidades para o Bem-Estar Animal (Ufaw) concluíram que esses métodos comprometem o bem-estar dos animais tanto no curto quanto no longo prazo. O tranco na guia resolve o momento. O estresse fica.
Há algo ainda mais sutil acontecendo, porém. Quando um tutor acredita que precisa “ser o líder”, ele passa a interpretar cada interação com o cachorro como uma disputa de poder. O cão que puxa a guia está desafiando a autoridade. O cão que late para outro cachorro está sendo dominante. O cão que sobe no sofá está tomando território. Tudo vira hierarquia. Tudo vira ameaça.
E nesse enquadramento, o afeto se torna um risco. Dar carinho demais seria sinal de fraqueza.
O amor — aquele amor bagunçado, espontâneo, que faz a gente falar em voz de bebê com um animal de quatro patas — passa a parecer incompatível com a ideia de liderança.
Respeito não é medo
Em uma reportagem que escrevi para a revista piauí, o adestrador Pedro Fontoura explicou bem: afirmar que um cão só respeita quem o intimida “não é só errado, é muito perigoso”. Respeito genuíno, segundo ele, se constrói com confiança e entendimento mútuo — não com subordinação forçada.
Brian Hare, professor de antropologia evolutiva na Universidade de Duke, vai na mesma direção. Para ele, o sucesso crescente do adestramento baseado em reforço positivo reflete uma mudança cultural mais ampla: cada vez mais pessoas enxergam seus cães como membros da família. O treinamento positivo está simplesmente mais alinhado com o que as pessoas já sentem, mas às vezes têm vergonha de admitir na frente do adestrador.
A pergunta que fica
Existe algo curioso na figura do tutor que anda pela rua com cara fechada, guia curta e enforcador: na maioria dos casos, é alguém que ama o cachorro de verdade. Que pesquisou, que pagou adestrador, que quer fazer a coisa certa. O problema não é a falta de amor — é que uma teoria descartada pela própria ciência convenceu essa pessoa de que amar demais é um erro de gestão.
Vale parar e perguntar: que tipo de relação você quer ter com o seu cachorro? De chefia ou de companhia? Porque, ao contrário do que o mito do alfa sugere, essas duas coisas não precisam estar em campos opostos. Você pode ensinar, estabelecer limites e ainda assim ser, para o seu cão, a melhor parte do dia.
O lobo alfa não existe na natureza. Não precisa existir na sua calçada também.
Conta pra gente 🐾
Como é o passeio com o seu cachorro? Guia longa, curta, tranco, petisco, parada obrigatória em cada poste? Nos comentários abaixo, conta como você lida com isso — ou se já mudou sua abordagem em algum momento. As histórias mais interessantes aparecem na próxima edição da LambeLambe.
Se alguém que você conhece ainda acredita que precisa “ser o alfa” do cachorro, encaminha esse texto. Pode ser o começo de uma conversa importante — para eles e para o cão.



