Doguinhos livres
Conheça a liberdade (com responsabilidade) do cão comunitário.
Eram três - todos sentados bem na minha frente, esperando, sem pressa.
Olhavam de vez em quando para o petisco de iscas de peixe que estava em cima da mesa. Afobação zero. Sabiam que, em algum momento, chegaria a vez deles de ganhar um pedacinho. Olhei para o outro lado e dei de cara com mais um peludo. Eu estava numa praia na Ilha do Marajó, cercado por quatro doguinhos. Incômodo nenhum: eu estava cercado num bom sentido, já que todos eram muito simpáticos. Praticamente anfitriões da praia. Em duas semanas de férias pelo Norte do Brasil, não era a primeira vez que eu encontrava essa instituição que podemos chamar carinhosamente de doguinhos livres.
Pode parecer contraditório que, numa semana, a gente fale da importância fundamental do uso da guia para a segurança de todos e, na semana seguinte, fale de doguinhos livres, leves e soltos na calçada. Mas você vai ver que não é bem assim.
Para começar, são livres não no sentido de que outros doguinhos que vivem com seus tutores são prisioneiros. É, na verdade, uma outra forma de viver em sociedade. São livres no sentido do freestyle e do improviso; são doguinhos que flanam pelas ruas, sem um tutor específico, sem uma casa definida, mas não são abandonados. Convivem com muita gente e, sem exagero, fazem parte da vida social de um determinado lugar: brincam, participam de festas, andam pelas ruas livremente, até dormem cada noite em uma casa, dependendo do arranjo consensual. São parte da vida comunitária.
Mas pode isso, ArnAUdo?
Comunidade é a palavra-chave aqui.
Doguinhos que andam sozinhos tranquilamente pelas ruas e parecem bem cuidados, bem alimentados e com pelo brilhante são uma cena rara na Zona Oeste de São Paulo (onde moro), mas em muitos outros lugares são bem mais comuns. Em geral, bairros residenciais mais tradicionais ou mais afastados do centro, cidades menores, outras regiões do país - lugares onde o senso de comunidade e a coesão social são fortes.
Aí é que surge uma definição bem boa: cão comunitário é um doguinho que estabelece determinados laços com uma comunidade. Tem até lei para definir isso, um avanço razoavelmente recente e necessário.
Os vínculos são definidos na lei como sendo de "dependência e manutenção", mas isso é, de certa forma, reducionista, na medida em que a relação parece ser muito mais de mão-dupla - o doguinho é acolhido pela comunidade, recebe abrigo, cuidados e alimentação, e em troca tem uma convivência social e até mesmo uma função de guarda e proteção contra intrusos (sejam caninos ou não).
Vários moradores podem ter papeis diferentes na relação com um cão comunitário e, não raro, ele não tem um abrigo definido. Não é necessário que ele tenha um tutor exclusivo, mas a lei permite que uma pessoa assuma esse papel perante o poder público para garantir todos os direitos do cão comunitário e que também fique responsável pelos deveres e cuidados com a comunidade, como o uso responsável do espaço público pelo doguinho.
Com grandes poderes vêm grandes responsabilidades
É aí a diferença essencial para aquele tutor malandrão, descuidado ou excessivamente confiante que sai por aí com um doguinho sem guia: um cão comunitário conhece a realidade das ruas e está acostumado a uma convivência comunal externa, com limites e permissões muito claros. As regras sociais não-escritas que existem numa comunidade servem para balizar o comportamento do doguinho comunitário, tanto de um lado quanto de outro. É um compartilhamento da responsabilidade e do cuidado.
Atenção: Não é que não haja riscos nesses doguinhos livres que andam sem guia.
Mas faz sentido pensar que há mais garantias quando a comunidade é responsável coletivamente pela proteção ao cão comunitário e, ao mesmo tempo, impõe limites a ele para garantir a segurança de todos.
Esse pacto de convívio social é importante num país que ainda tem muitos doguinhos sem lar definido e muitas famílias que não podem arcar com os custos de cuidar da melhor maneira de um pet.
Além disso, respeitar essa instituição do cão comunitário é exercitar a alteridade, um conceito antropológico importante. É valorizar e respeitar as diferenças, ter empatia, colocar-se no lugar do outro. Um doguinho livre, vivendo numa comunidade que o acolhe e na qual ele também tem direitos e deveres, faz parte de um mecanismo social que nos permite entender que há diferentes formas de viver em sociedade. É uma criação comunal que, além de permitir cuidado e segurança aos peludos, ensina às crianças o conceito do cuidado e da responsabilidade e reforça os laços sociais comunitários de uma determinada região, ao valorizar a interação coletiva.
Ou seja, é bem diferente de um tutor sem-noção que decide sozinho sair com seu doguinho sem guia, por conta e risco e à revelia da sociedade.
Doguinhos livres hasta la victoria
No Marajó, cada cãozinho ganhou sua recompensa ao final, de forma ordeira e sem atropelos. Não tive receio algum: lembrei de outras interações que havia tido antes com outros doguinhos livres e de alguma forma senti que eram bem-educados na arte da petiscaria no prato alheio.
Em outra viagem, em Colônia del Sacramento, no Uruguai, assisti ao pôr-do-sol com esse camarada peludo aí da foto embaixo, que nos seguiu por toda a cidade depois do almoço. Ele sentou-se atrás de mim e cutucava minhas costas com a pata, pedindo mais comida. Não dei e deixei claro que não daria. Sossegou e assistiu elegantemente ao pôr-do-sol.
Horas depois, saímos do jantar e lá estava ele de novo, com mais amigues peludes. Andamos pela cidade adormecida ( fora de temporada dormem cedo por lá) e praticamente fizemos parte de uma matilha de notívagos, com os doguinhos juntos no rolê. Tenho até vídeo disso.
Em cada lugar, as relações comunitárias são diferentes, mas há um padrão. Conheci doguinhos livres em lugares como México, Peru, Uruguai, Pará, Bahia, Pernambuco, interior de Minas e por aí vai. O que não muda, em nenhuma dessas latitudes ou longitudes, é que os doguinhos são parte essencial da vida em comunidade por um motivo - à sua maneira, são estímulo para a humanização das relações sociais.
Em resumo, é a democratização de algo que todos os tutores conhecem bem: um doguinho nos ensina muito sobre cuidado, empatia e respeito ao outro.
É legal ficar por dentro
Cão comunitário é legal - em todos os sentidos.
No Estado de São Paulo, a lei nº 12.916/2008 define os parâmetros, direitos e deveres (link aqui). Em outros estados há leis semelhantes, tanto já aprovadas quanto em tramitação.
Na legislação federal, a figura do cão comunitário foi incluído na legislação por meio do PL 3232/2019 (link aqui). Ainda há outros adendos, que expandem a cobertura de direitos para os doguinhos. Deve ser aprovado em breve.
E, por fim, há inúmeras legislações municipais que dispõem sobre o tema.
Há uma série de direitos para o cão comunitário. Apesar de não ser necessário ter um tutor único, uma pessoa da comunidade pode se credenciar perante o poder público e tem direito a levar o doguinho para castração, cuidados veterinários e vacinação. Além disso, a identificação do peludo é uma garantia de que ele não será recolhido por engano pelo órgão de controle de zoonoses.
Nosso mantra: andar sem guia é perigoso. Mas é importante entender que há outras formas de convivência entre doguinhos e humanos, como os cães integrados a comunidades em que o cuidado e a atenção são coletivos e compartilhados.
Risco sempre existe em ter doguinhos livres pela rua, mas a responsabilidade é coletiva e compartilhada por toda a comunidade.
É uma situação reconhecida por lei - há direitos e deveres para a comunidade e para os doguinhos.
Doguinhos livres ajudam a estreitar laços sociais e comunitários e a exercitar empatia e respeito ao outro.
LambeLambe é sobre doguinhos e traz informação de qualidade para o mundo canino - comportamento, saúde, produtos úteis, mitos e verdades. É jornalismo para os tutores de doguinho, mas as estrelas de LambeLambe não poderiam deixar mesmo de ser as peludas e os peludos de quem gostamos tanto.
Pensando nisso, criamos a seção LambeLambe do mês, que vai trazer todo mês o doguinho ou a doguinha de um dos nossos seguidores em uma arte digital exclusiva, feita no nosso estilo LambeLambe, super colorido e artesanal. Para participar é fácil: envie uma foto e conte um pouco do que faz o seu amigo ou amiga pelude ser tão especial.
Vamos postar aqui na Newsletter, no nosso Instagram (@lambelambenews) e enviar também um arquivo digital para você repostar e divulgar para família, amigos e outros tutores.
E como não podia deixar de ser, a primeira estrela LambeLambe vai ser nossa repórter especiAU Filomena Patolina, da coluna Achados da Filó. A NepoBaby do Diogo Rodriguez e da Tati Weiss foi retratada bem na hora de uma de suas atividades preferidas - é só ver a guia que ela já se liga que vem rolê por aí.
A setorista do jornalismo de serviços canino merece uma arte só dela: afinal, o que seria da coluna Achados da Filó sem os seus rolezinhos? Olha só como ficou:
Mande a foto e as informações de seu pelude no email lambelambenews@gmail.com, na DM do nosso Instagram (@lambelambenews) ou até mesmo nos comentários aqui da LambeLambeNews!









Que texto bacana, Ricardo!
Ótimo texto! Mostrou de forma clara quem realmente são os doguinhos comunitários