O que um rinoceronte e uma vira-lata têm em comum?
No Animalia Park, em Cotia, um argentino treina rinocerontes, ursos e onças com as mesmas ferramentas que qualquer adestrador positivo usa com cães
Eu disse “Bis, boca” e ele abriu.
Cliquei. Ofereci uma banana-nanica com casca. Ele pegou com a mesma delicadeza com que a Filó pega um pedaço de filé-mignon suíno na sala de casa. A diferença é a minha cachorrinha pesa 12 quilos. O Bis pesa cento e sessenta vezes mais e eu estava em um zoológico em Cotia.
A Filó não sabe o comando de abrir a boca, mas sabe bem o deitar. Atualmente, consigo pedir que ela deite apenas dizendo: “deita!”. O Bis faz isso também. Dois animais completamente diferentes que aprenderam a conversar com os humanos usando as mesmas técnicas.
Existe uma provocação que circula nos debates sobre adestramento de cães. Quando alguém defende os métodos baseados em reforço positivo, —com recompensas, sem coleira de choque, sem punição física—, invariavelmente aparece o contra-argumento do pitbull bravo. Quero ver você treinar um pitbull agressivo de 40 kg com coleirinha e petisquinho, diz a versão mais suave. Não raro, dinossauros hipotéticos de peitoral entram na discussão.
Diego Cecilio oferece uma boa resposta. Argentino, trabalhou com orcas, golfinhos e leões-marinhos em aquários na Europa e em Dubai. Há três anos é coordenador de treinamento do Animalia Park, em Cotia, na Grande São Paulo. Quando perguntei sobre o pitbull bravo, ele mal deixou eu terminar a frase.
“Pitbull bravo, tigre, rinoceronte — acho que está de bom tamanho a comparação.”
Dinossauro de peitoral
Existe uma provocação que circula nos debates sobre adestramento de cães. Quando alguém defende os métodos baseados em reforço positivo —com recompensas, sem coleira de choque, sem punição física—, invariavelmente aparece o contra-argumento do pitbull bravo. Quero ver você treinar um pitbull agressivo de 40 kg com coleirinha e petisquinho, diz a versão mais suave. Não raro, dinossauros hipotéticos de peitoral entram na discussão.
Diego Cecilio oferece uma boa resposta. Argentino, trabalhou com orcas, golfinhos e leões-marinhos em aquários na Europa e em Dubai. Há três anos é coordenador de treinamento do Animalia Zoo, em Cotia, na Grande São Paulo. Quando perguntei sobre o pitbull bravo, ele mal deixou eu terminar a frase.
“Pitbull bravo, tigre, rinoceronte — acho que está de bom tamanho a comparação.”
Duas toneladas, sem coleira
O Bis, um rinoceronte-indiano, chegou ao zoológico da Europa sem condicionamento nenhum. Pouco depois, desenvolveu uma dermatite nas patas que precisava de tratamento duas vezes por dia durante três meses. Como se faz para conter um rinoceronte de duas toneladas que não quer ser contido?
Diego e a equipe foram por outro caminho. Trabalharam por semanas para moldar, em pequenos passos, o comportamento de deitar e expor as patas. Cada aproximação do comportamento desejado era recompensada. Paravam. Voltavam. Sem pressa.
Hoje, quando a tratadora de Bis fala “deita”, ele rola o corpo inteiro, expõe a barriga e fica imóvel enquanto aplicam o medicamento. Sem coleira. Sem restrição física de nenhum tipo. Só a relação construída ao longo do tempo.
Qualquer tutor que já tentou convencer um cão com medo de ir ao veterinário vai reconhecer o que está sendo descrito aqui. A dessensibilização gradual — apresentar o estímulo temido em doses mínimas, recompensar a tolerância, aumentar progressivamente a exposição — funciona em qualquer animal capaz de aprender por associação. A espécie é um detalhe.
O urso que parou de tomar remédio
Outra história mostra bem como esse tipo de treinamento pode mudar a vida de um animal. Davi, um urso-de-óculos, chegou com uma inflamação na pata que exigia raio-x todo mês. Antes do condicionamento, estava medicado com psicofármacos para controlar ansiedade e comportamentos estereotipados — aqueles movimentos repetitivos e sem função que animais em cativeiro desenvolvem quando o ambiente não oferece estímulo suficiente.
Diego treinou o posicionamento para o exame. Pouco a pouco, Davi foi deixando a medicação. Hoje se posiciona voluntariamente para o procedimento, quantas vezes forem necessárias, sem sedação, sem contenção.
“O condicionamento, além de todos os benefícios que tem, é um estímulo ambiental para o animal. Físico e mental”, me disse Diego.
O Davi também é descrito pela equipe como “extremamente inteligente”. Às vezes eles roubam comportamentos dele: quando faz algo espontaneamente útil, reforçam na hora e transformam em comando. É o oposto da lógica de correção — em vez de esperar o erro para punir, esperam o acerto para consolidar.
Fico pensando em quantos cães com comportamento destrutivo, latido excessivo ou ansiedade severa estão, na raiz, subocupados. O problema apresentado como temperamento, sendo, na verdade, uma questão de rotina.
Diego tem uma frase sobre isso que ficou na minha cabeça. “Um animal na natureza está procurando refúgio, água, comida, escapando de predadores. Tudo isso aqui está resolvido. Se a gente não oferece variedade nessa rotina, essa capacidade de associação, de aprendizagem, do estímulo que o animal tem lá fora — aqui perde. Fica algo muito triste, uma repetição constante do dia a dia.”
O problema com surpresas
Tem mais uma história que vale contar, sobre um mandril. Em algum momento, ele vai precisar ser capturado com rede para algum procedimento veterinário. É quase inevitável. A maioria das equipes encurrala o animal quando chega a hora.
Diego faz diferente: a rede aparece nos treinos agora, meses antes de qualquer necessidade. Aparece, recebe recompensa, desaparece. Semana a semana. Quando o dia chegar, o animal vai reconhecer o objeto. Não vai ser a primeira vez.
É o mesmo princípio da caixa de transporte que o cão odeia. Da mesa do veterinário que virou trauma. A dessensibilização funciona — mas precisa começar antes da emergência. Depois que o medo está instalado, o trabalho é muito mais longo.
A parte difícil
No final da visita, Diego me disse algo que fechou tudo de um que amarrou as coisas.
“Se você falar para um dono de cachorro que você treina rinoceronte, do ponto de vista do marketing é muito ruim. Mas a sua maior dificuldade vai ser com os donos.”
Ri. E enquanto ria, entendi que ele estava sendo completamente sério.
Não são os animais que resistem à lógica do reforço positivo. São as pessoas. A impaciência com o processo gradual. A dificuldade de aceitar que o animal não está “testando” você, que não há disputa de poder acontecendo, que o comportamento indesejado não é desafio nem birra — é apenas um comportamento que ainda não foi substituído por um melhor.
Diego falou isso com a tranquilidade de quem passou anos reconvertendo não só animais, mas tratadores, veterinários e diretores de zoológico à mesma lógica. O rinoceronte é a parte fácil.
A resposta à pergunta do título é simples: o rinoceronte e a vira-lata têm tudo em comum. O clicker é o mesmo. O target é o mesmo. A dessensibilização gradual é a mesma. O reforço variável é o mesmo. A paciência necessária para construir uma relação de confiança com um animal que não fala a sua língua é exatamente a mesma.
A diferença é que no zoológico de Cotia, ninguém questiona o método. Ninguém argumenta que o rinoceronte precisa aprender quem manda. Ninguém sugere que uma coleira de choque resolveria mais rápido.
O Bis abre a boca quando pedem. Deita. Expõe a barriga para receber remédio. Duas toneladas de animal construindo, dia após dia, uma relação baseada em confiança.
Nada diferente do que a Filó em casa. Só a escala muda.
Veja aqui eu pedindo para o Bis abrir a boca:





Que relato inspirador! E quanta verdade: serem de espécies diferentes é um mero detalhe quando falamos de treinos cooperativos, reforço positivo e construção de vínculos. Obrigada por compartilhar!